sábado, 9 de julho de 2011

Um plano para amar os livros



Um texto de Maria José Nogueira Pinto, publicado em 2009 no DN

“Vou viajar com o imaginário dos outros”, assim definiu Bernard Babkine a sua ida para Deauville com uma mala cheia de livros. O que prova que, hoje em dia, é preciso ter férias para poder ler livros, o tempo normal devorado pelas novas formas e fórmulas de aquisição de conhecimentos, informação e convivência com as realidades e a imaginação.

Mas, apesar de todos os sons e imagens que cruzam o nosso olhar, perfuram o nosso cérebro e nos tornam uma espécie de conduta passiva por onde toda essa informação passa, acriticamente, efémera e breve, o gesto de pegar num livro, o toque do papel, o virar da página, a sujeição a um ritmo necessariamente lento, nesse encontro iniciático entre quem escreve e quem lê, esse cerimonial de apresentação aos personagens, esse esforço ansioso de configurar o espaço onde se movem, os sons de vozes que não ouvimos, os cheiros e cores que não sentimos nem vemos é, e será sempre, um exercício emocionante, singular e inaugural.

A leitura é uma realidade imensa, viagem que, uma vez iniciada, não tem fim, uma amarra de que ninguém pensa sequer libertar-se, uma porta para todos os outros mundos, um modo expedito para todos os encontros, todas as conversas. Como escutar às portas sem ser promíscuo. Como espreitar as vidas alheias sem ponta de “voyeurismo”. Uma maneira de esquecer e de lembrar. De estar aqui e acolá. De ser isto e mais aquilo. E não tem fim esta possibilidade de mil vidas em uma, única forma recomendável de mentir. Não mentir propriamente, mas imaginar, o que é diferente e sem sombra de pecado. Nélida Piñon chamou à escrita “o arfar da língua”, Veríssimo (Luís Fernando, filho de Erico) definiu-a desta forma admirável: “Sempre escrevemos para recordar a verdade. Quando inventamos é para recordá-la mais exactamente.” Pepetela confessou que escrevia para sonhar e fazer sonhar. Montesquieu afirmava que não havia desgosto que uma hora de leitura não dissipasse.

Nestes últimos tempos li abundante e anarquicamente. Entrei, sem critério ou determinação prévia, na vida e alma de personagens muito diversos e com os quais estabeleci forte intimidade, viajei por uma geografia ousada e inconsequente, fiz troça do tempo, no passado e no futuro de mim. Dando sentido ao enigmático verso de Guimarães Rosa: “Eu sou donde nasci. Sou de outros lugares.” A leitura de livros – ficção, romance, novela, poesia – é hoje, talvez, a mais enriquecedora forma de estar sozinho, sem estar só. Num tempo em que sobem os níveis de stress, se sofrem os efeitos do excesso de informação quase impossível de assimilar, aumenta vertiginosamente o número de pessoas que vivem sós, se formam ilhas e redutos onde antes se convivia, se perde a individualidade e a interioridade, os livros são um antídoto garantido. E também para aturar os inúmeros maçadores que nos rodeiam e ameaçam atrapalhar a nossa vida. Em Portugal, país que bate recordes no consumo de antidepressivos, este antídoto devia ser promovido oficialmente.

Para os mais novos, a questão é ainda mais premente. Filhos de uma cultura informativa e de imagem, com poucos hábitos de leitura, são os futuros homo videns. Correm o risco de ficar à margem da percepção de tudo aquilo que releva na própria essência da condição humana. Se pensarmos no conjunto de estímulos indispensáveis à formação de cada um enquanto pessoa, parte substancial vem, seguramente, da leitura, do poder de interpelação que as histórias, que apenas os livros podem narrar deste modo, têm na estimulação dos sentimentos e da compreensão de cada um. Num quadro de absoluta liberdade, esse exercício individual e silencioso é uma forte argamassa para uma interioridade coesa que abre os caminhos para crescer.

Felizmente que os responsáveis perceberam isso. Daí que, apesar da crença cega nas novas tecnologias de informação para igualar oportunidades, o Plano Nacional de Leitura vai fazendo o seu bom caminho. É que não basta ensinar a ler, é preciso ensinar a gostar de ler

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Mãe de Almada Negreiros

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos ás minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. como a mesa.Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão na minha cabeça !
Quando passas a mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

("Mãe" in Rosa do Mundo - Assírio & Alvim, Lisboa 2001)

Almada Negreiros

http://youtu.be/t5DrLeIgrh8

Há 41 anos faleceu Almada Negreiros

1893 // 1970

Artista plástico/Poeta/Ensaísta/Romancista/Dramaturgo e Coreógrafo

«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade».

"Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo."

"Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas."


In, a Invenção do Dia Claro